sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ela voltou para casa, ora bolas...

Terbonese era uma linda floresta, de árvores muito altas e esquilos saltitantes. No meio da mata, mal se podia ver a luz do sol, que era tampada pela folhagem densa e escura. Os animais viviam em plena harmonia, uma vez que esta era uma mata virgem. Ficava muito distante de qualquer centro urbano, e não existia em nenhum mapa. Isso tornava a região de Terbonese muito especial.

De certa forma ela não existia. Como ninguém sabia de sua existência, era como se ela não existisse, ora bolas.




Mas, enfim. Esqueçamos a linda floresta de Terbonese. Essa história não é sobre ela.




Bordonésio era um boxeador. Desde a mais tenra idade dizia que queria ser boxeador profissional. Os pais estranhavam, nunca haviam visto um menino de 1 ano e meio ficar socando a parede de seu quarto até tirar sangue dos punhos. Na escola era uma peste. Arranjava briga com todos os coleguinhas. Quando ficou mais velho abandonou os estudos para treinar. Mas acabou sendo expulso da academia, pois atacou um de seus colegas por trás, na frente de seu treinador. Sua mania de brigar foi piorando até que se tornou mendigo. Mendigava e batia nas pessoas pela rua. Principalmente nas velhinhas. Mas é claro! Elas nunca davam esmola.




Mas, enfim, Bordonésio não importa. Essa não é uma história sobre ele.




Havia uma fábrica de lâmpadas na região dos alpes de Heurgoistein. Era uma fabrica muito antiga, alguns diziam que datava do século IV A.C., apesar de ainda não existirem lâmpadas nessa época. Essa fábrica foi muito importante ao longo da história. Muitos nobres, reis, ditadores e terroristas compraram lâmpadas fabricadas lá. Além disso, seus cientistas lamparínicos contribuíram muito com a tecnologia lampadal que temos hoje. Devemos muito a eles. Devíamos rezar todos os dias agradecendo às suas noite em claro, tentando elevar o nível de iluminação da humanidade. Bom, eu faço isso. Se você não faz devia passar o resto dos seus dias no escuro, pra ver o que é bom.




Mas isso é de importância ínfima. Essa história não é sobre a fábrica de Heurgoistein.




Certo dia estava tomando suco de laranja. Me deliciava com ele. Fazia com que minhas papilas gustativas aproveitassem ao máximo cada gota desse sagrado néctar. A cada gole meus olhos se enchiam d'água, por causa da emoção do beber. Eu ficava ali. Horas. Apenas tomando suco de laranja. O que pode ser melhor do isso? Sexo? Talvez. Mas sexo não tem gosto de suco de laranja. É uma pena. Quando ia tomar o último e melhor gole do meu vigésimo sexto copo de suco de laranja do dia 3 de Abril de 2014, minha cozinheira me interrompeu:

"Tem um homem na porta. Ele que falar com você. Parece irritado"

Estranhei. Nunca convido ninguém para minha casa na Hora de Degustação de Suco de Laranja. Tomei o último gole do copo e levantei da Cama Degustativa.

Caminhei pelos corredores, ou melhor, fui caminhado pela casa. Havia instalado o novo sistema de chão rolante, para não ter que ficar caminhando, gastando minhas juntas. Chegando na porta deparei-me com um homem feio, sujo e fétido que ficava pulando de um lado para o outro como se estivesse num ringue de box.

-Boa tarde, poderia me arranjar uma esmola ou um pouco de comida?

-Por que logo eu? Essa vizinhança é enorme.

-Tens uma bela casa.

-A do vizinho é maior.

-(Olha) É, tem razão. Mas a sua é mais chique que a dele. Logo imaginei que tivesse mais grana.

-O que o fez pensar isso?

-Bom, é simples. Não é todo mundo que tem luminárias germânicas no jardim. Muitos menos com lâmpadas originais da grife de Heurgoistein.

-Hum, vejo que tens alguma cultura. Não é qualquer um que reconhece uma delas. Como te chamas?

-Bordonésio.

-Oh! Mas que lindo nome. Meu filho também se chama Bordonésio. Queira entrar, por favor.



Bordonésio se banhou e comeu. Depois conversamos sobre variedades, ele se mostrou um homem muito culto.

-Como um mendigo pode ser tão culto?

-Não sou um mendigo qualquer. Por ser um mendigo altamente anti-social, resolvi caminhar intermitentemente em linha reta, saindo aqui da cidade. Qual não foi a minha surpresa, depois de dois meses caminhando sem rumo, me deparo com a floresta de Terbonese.

-O que é isso?

-É uma floresta virgem. Na verdade, ela não é virgem. É que quem entra dentro dela não pode mais sair. Portanto, as únicas pessoas que sabem de sua existência são as que vivem por lá. É muito densa a sua mata. Muito facilmente nos perdemos lá dentro. A maioria dos que, por acaso, vão parar lá, acabam vivendo pra sempre no meio das plantas e dos esquilos saltitantes.

-Interessante. E como conseguiu sair?

-Não consegui. Ainda estou lá. Não estou aqui na verdade, sou apenas uma ilusão, como um sonho seu. Meu desejo de sair de lá é tão grande que me personifico fora de meu corpo. Geralmente, mas não sempre, apareço muito longe da floresta. Que é o seu caso também, né?

-É, verdade. Mas não conte pra ninguém sobre isso! E como descobriu que eu também estou em Terbonese?

-Fácil. Terbonese fica nos fundos de sua casa. Idiota.
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Mas esqueçamos esse encontro ridículo. Essa história não é sobre esse encontro.
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Essa história é sobre uma mulher que foi ao supermercado fazer as compras e depois voltou.

Fim.

-Mas para onde ela voltou?
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NOTA EXPLICATIVA (à quem interessar)





Como muitas pessoas estão dizendo que não compreendem meus textos, achei que deveria esclarecer alguns pontos.



Gosto de escrever textos com o sentido em aberto. Que não tenham uma interpretação única e imediata. Muitas vezes, eu mesmo formulo uma interpretação do texto, mas esta não será a "versão" certa. Acho interessante quando o leitor vem com uma visão totalmente diferente da minha. Não estou dizendo que "sempre" formulo um interpretação, pois algumas vezes o que escrevo não quer dizer muita coisa mesmo, como em "Ela voltou para casa, ora bolas", e "Eu quero verde", ou tem sentidos possíveis de mais, a ponto de não me prender em nenhum deles, como no caso de "O Sol é o Sol". Isso, claro, também se aplica aos meus poemas.






Por exemplo, no meu último texto, "Eternamente Seu", a leitora Bruna F. disse entender que os dois personagens da história eram almas gêmeas, e que seus destinos era estarem juntos, sejam como marido e mulher, ou mãe e filho. Isso não era a minha interpretação inicial, embora, relendo o texto, pude notar que isso estava de certa forma contido na história. Já a leitora Hosana Lemos achou que o filho parido no final da história não era Horus, e este, que estaria em "algum outro lugar", realmente encontra e fala com sua mãe, dando assim um sentido bem interessante e diferente do que havia imaginado para o final da história.






Para quem quiser saber, a minha ideia nessa história é a seguinte: Horus perdeu a mãe muito cedo, e logo antes de morrer ela lhe diz que estarão juntos novamente, algum dia. Assim, acabou se casando com uma mulher muito parecida com sua mãe, tanto fisicamente, quanto emocionalmente, Clonérie. Ele consegue manter sua vida feliz e em equilíbrio dessa maneira. Até que certo dia, sua mãe o chama num sonho. Nesse sonho ele vê a mãe, e ao mesmo tempo sente a presença da esposa, o que quer dizer que ele está "misturando" as duas pessoas em apenas uma. A partir de então, sua vida entra em desequilíbrio. Ele passa a desejar a presença de sua mãe e ao mesmo tempo a enxerga em sua esposa. Nesse ponto do texto há um acontecimento, digamos, metafísico. Clonérie engravida de seu marido. Quero dizer, ela engravida com ele dentro de seu ventre, de forma que ela agora se torna a mãe de Horus. O que nada mais é do que a realização do que acontecia na cabeça de Horus, onde sua esposa e sua mãe ocupavam o mesmo lugar, o mesmo "posto", por falta de um termo melhor. Na verdade, no final do texto, Clonérie se torna apenas mãe de Horus, por ser algo mais forte, um laço mais forte que o de esposa. No fundo, isso era o que ele realmente queria, reencontrar sua mãe. E de certa forma foi o que aconteceu. Era isso que Horus era, "eternamente" de sua mãe. Após ser parido, Horus passa a ter sua vida em equilíbrio novamente.






Freud dizia que os homens querem fazer sexo com suas mães e assassinar seus pais, isso me influenciou também na escrita do texto. E gostaria de deixar claro que minha intenção não era fazer um conto de terror, como chegaram a me dizer. Horus não entrou fisicamente no ventre de Clonérie, e sim, figurativamente. Como num sonho. Poderia dizer que esse é um conto, de certa forma, onírico, pois seus acontecimentos não são justificados fisicamente, não são possíveis no mundo real.






Ouvi e li, algumas outras interpretações. Nenhuma delas está certa ou errada, são apenas pontos de vista diferentes, diria.

sábado, 13 de junho de 2009

Eternamente Seu

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Existe algo de estranho

De misterioso

Não sei bem o que é

Apenas sei

O que não é



.....Horus é um homem apaixonado. Apaixonado pela vida. Ama sua família, seus amigos. Ama seu emprego e seus deveres. É um homem que acredita que se deve amar, que esse é o sentido da vida. Dar amor ao mundo. Acha que o amor vai curar todas a mazelas e sofrimentos.
.....Ele caminha no parque ensolarado. Ouve o cantar dos passarinhos. Que júbilo é o viver! Sente a grama sob seus pés descalços. Entra em contato com a Mãe maior. A Mãe de todos. Essa pela qual é apaixonado: a Mãe Natureza.
.....Horus Fleursdein é casado com Clonérie. Uma linda mulher. Ruiva, de olhos grandes e expressivos. Corpo esbelto, e feições delicadas. Um bom senso de humor. E muito carinhosa. Assim como era sua mãe.
.....Eles se amam de forma intensa por longos cinco anos. Para eles foram apenas alguns segundos. Tudo que é bom passa rápido. Assim como a vida da mãe de Horus. Tébia morreu quando ele tinha apenas 6 anos. Nunca se esqueceu da última imagem de sua mãe, deitada na cama, segurando sua mão. Ela disse "que iriam se reencontrar, que ele devia esperar o dia em que estariam juntos novamente, unidos, como um".
.....Certo dia Horus acorda estranho. O canto dos passarinhos não é mais tão belo como fora um dia. Nem a vida tão cheia de amores.
.....-O que houve?
.....-Sonhei com minha mãe.
.....-E o que acontecia?
.....-Ela me chamava.
.....-Não ligue para esses sonhos, esqueça-os. Eles te fazem mal.
.....-Não. Dessa vez não parecia um sonho. Era muito real. Era como se ela realmente estivesse aqui conosco. Eu estava aqui mesmo, deitado em nossa cama. Ela me acordou, e falou baixo, para que você não acordasse... Não, na verdade, me lembrando melhor, você não estava na cama. Ela falava baixo, mas você não estava. Podia sentir sua presença mas não podia vê-la. Via apenas minha mãe.
.....Horus começa a se sentir mal, nos dias que se seguem. Não consegue trabalhar direito. Pensa muito em sua mãe. Ela domina seus pensamentos. Clonérie começa a ficar preocupada, pois seu marido a olha de um forma estranha. Seus olhos ainda brilham por ela, mas é um brilho diferente. É um brilho infantil.
.....Um belo dia, Horus some. Desaparece. Sem deixar rastros. Clonérie acorda e ainda sente o calor de seu marido na cama. À noite começa a se preocupar. No dia seguinte liga para a polícia. E para os parentes e amigos mais próximos. Ninguém sabe de nada. Ninguém sabe por onde anda Horus. "Será que fugiu com uma amante?", pensa. Não, não pode ser. Eram unidos demais para que isso acontecesse.
.....Após algumas semanas de sofrimento Clonérie desiste, e começa a se acostumar com a ideia de que não mais irá reencontrar seu marido. Ao mesmo tempo descobre que está grávida. "Mas eu estava tomando pílula!" ela diz ao seu médico. Clonérie resolve não abortar, afinal de contas, seu marido iria querer ter esse filho, que há muito planejavam.
.....A barriga de Clonérie ficou enorme. Imensa. Seu médico lhe disse que nunca havia visto algo igual. Era um menino. "Um meninão!", diziam,"grande como o pai!".
.....No nono mês a sua barriga está tão grande que mal consegue caminhar. Ela acaricia sua barriga, e conversa bastante com o bebê. Até que sua bolsa estoura. Sente fortes dores. Ela está sozinha em casa. Tenta alcançar o telefone, mas cai no chão. Grita, mas não é ouvida. Sua casa é muito grande e distante da dos vizinhos, que não a podem escutar. Tenta se levantar mas não consegue. Ela sente que ele está vindo. É agora.
.....Clonérie acorda. Sente muita dor, e percebe que seu bebê já foi parido. Abre os olhos. Ouve o belo canto dos pássaros. Consegue ver pela janela um belo dia ensolarado, como Horus tanto gostava. Ela se vira, e enxerga seu filho.
.....-Mãe, eu te amo - diz Horus .

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Amores Efêmeros 2

Gleube Manganésfero de Sá Pretextata era um menino estranho.

Quando bebê não chorava. E mamava muito pouco. Só ficava olhando pra cara da mãe.
Engatinhou até os 6 anos de idade. Quando ia na rua, as crianças ficavam olhando aquele meninão engatinhar no chão sujo.
Quando começou a caminhar não brincou com bonecos. Nem com bola de futebol. Não brincava. Nem tinha amigos. Só ficava olhando pro nada. Quando sua mãe perguntava o que tinha, ele dizia que não tinha nada, que estava tudo bem.

Ele achava que nada tinha graça. Nada o interessava muito. Nem comida, nem amigos, nem meninas, nem meninos, animais, parentes, esportes, livros, ideias, profissões, objetivos. Nada.

Quando Gleube completou 16 anos de idade, sua vida mudou. Estava caminhando na rua, olhando para o nada, quando passou por uma vitrine. Seus olhos não podiam acreditar no que estavam vendo: um iPod.

Aquilo era a coisa mais linda que havia visto em sua vida. Seu coração começou a bater mais rápido, começou a suar frio e ficou todo arrepiado. Nunca havia se sentido daquela maneira antes, aquele estava sendo o momento mais emocionante que havia vivido até então.

Um dos vendedores da loja notou que havia um menino na vitrine da loja, com a cara colada no vidro, meio que babando e com o olhar fixado no iPod. Há uns 15 minutos.

-Olá! Posso ajuda-lo?
-...
-Er, gostaria de entrar na loja? Posso te mostrar o iPod que está na vitrine.
-...

Os dois entraram. Gleube estava com as pernas tremendo e com as mãos geladas. Mal podia acreditar que iria colocar as mãos naquele objeto divino.

-Aqui está!

Gleube segurou o iPod. De perto, em suas mãos, era mais lindo ainda que na vitrine. E achou sua textura maravilhosa. Era maravilhoso. Era perfeito. Era tudo que havia esperado sua vida inteira.

Gleube comprou o iPod.

Sua mãe notou que Gleube estava agindo de maneira diferente. Estava sorrindo mais, estudando com mais atenção. Passava as tardes trancado no seu quarto, estudando. Mas não tinha a menor ideia do motivo desta mudança superficial. Ela não podia notar a grande mudança interna de Gleube.

Mas Gleube não estava estudando mais. Ele na verdade se trancava em seu quarto e passava a tarde inteira segurando o iPod, sentado na cama.

Passou a ter sonhos estranhos. Estava sempre com seu iPod, e estavam sempre sozinhos no mundo. E nos seus sonhos ele sempre fazia mesma coisa: ficava a admirar o iPod.

Sua mãe começou a ficar preocupada com Gleube, mais que o normal. Ele só ficava andando com aquele iPod, de um lado pro outro. E continuava sem namorada e sem amigos. Suas notas escolares chegaram e ele havia sido reprovado em todas as matérias.

-Gleube, o que há de errado? Será que não gostaria de ir num psicólogo? Seu comportamento tem sido estranho.
-Estranho? Não, não. Está tudo bem, não se preocupe.

Naquela noite, Ernesta ouviu sons estranhos vindo do quarto de Gleube. Ela se levantou e se esgueirou até o seu quarto. Olhou pela fechadura.

Não podia acreditar no que estava vendo. Gleube estava fazendo sexo com o iPod.
Não pode se conter, e entrou no quarto.

-Meu filho!! O que isso?? Você está trepando com o iPod?
-Trepando não, mãe. Estamos fazendo amor.

sábado, 30 de maio de 2009

Amores Efêmeros

Em alguns anos. Num dia comum.

-Querido, estou entediada. Vamos pedir um filho?
-Outra vez? Já pedimos um na semana passada e você não gostou dele.
-Ah, e daí? Se não gostar dessa vez, eu troco.
-Ok.

Fincher vai até o telefone.

-Alô. Sim, eu gostaria de fazer um pedido. Hum, um menino.
-Não! Dessa vez peça uma menina!
-É... desculpe, vai ser uma menina hoje. Isso, loira, com...
-Ruiva! Quero uma ruiva!
-Bom, ruiva então. E a cor dos olhos, querida?
-Verdes... escuros. Cor de musgo, sabe?
-Olhos cor de musgo, vocês fazem? Então quero isso mesmo. Ok, obrigado.

Naquela tarde.

-Fincher, nossa filha chegou! Venha ver!

Os dois abrem a embalagem.

-Veja só que graça! Da maneira que pedimos. Ruiva com os olhos cor de musgo - diz Adágia.
-É. Só espero que ela se comporte bem.
-Vou chamá-la de Túlia.

Meia hora depois.

-Túlia! O que está fazendo?? Desarrumou o quarto todo. Sujou a cozinha. Quebrou um vaso de plantas. Se continuar assim vou lhe enviar para a Assistência Técnica.

À noite.

-Olá, querida! Como foi seu dia?
-Péssimo. Túlia se revelou uma péssima filha. Tive que jogá-la aos cachorros.
-Ah, querida. Por que fez isso? Não seja tão impulsiva.
-Fincher, você sabe que não consigo me controlar. Ela passou dos limites.

Dois dias depois.

-Querido, pedi um outro filho. Menino dessa vez. Pianista, loiro e de olhos azuis.
-Hum.

Uma hora depois o filho chega.

-Olha só, mudaram a embalagem! Vamos, abra, Adágia, quero ouvi-lo tocar.

O filho, a quem resolvem chamar de Lócrio, vai ao piano e toca.

-É isso? Achei que tocasse melhor, isso eu sei fazer.
-Ah, mas ele é tão bonitinho!

Duas semanas depois.

Fincher chega em casa. Adágia ainda está no trabalho.

-Lócrio, o que está acontecendo?

Lócrio está nu, abraçado com o filho do vizinho. Fincher expulsa o filho do vizinho e começa a espancar Lócrio.

Adágia chega enquanto Lócrio é espancado.

-Fincher, o que está fazendo? Pare já com isso!

Fincher não lhe dá ouvidos.

Adágia parte para cima de Fincher.

-Saia daqui, Adágia. Não me interrompa! Eu que paguei por ele! Faço o que quiser. Você só sabe ficar gastando meu dinheiro com essas porcarias.
-Não diga isso! Eu estava começando a gostar desse. Pare, solte-o!
-Não.

Adágia pega uma faca. E grita. Fincher solta o menino, que se arrasta para fora de casa.

-Largue essa faca. Já.
-Não acredito que fez isso. Logo quando consigo amar um filho, você faz essa atrocidade.
-E você que jogou Túlia aos cachorros?
-Não amava Túlia.
-Mas era sua filha.
-Faço o que bem entender.
-Pois é, eu também. Vou matar Lócrio.
-Não, deixe Lócrio em paz!

Fincher pega uma garrafa de vidro e vai em direção à porta, por onde Lócrio escapou.

-Não! - grita Adágia.

Fincher se vira e vê Adágia se aproximando rapidamente com a faca levantada.

Fincher se desvia da facada e acerta a garrafa na cabeça de Adágia.

Fincher caminha até o corpo desacordado de Adágia e tampa sua boca e suas narinas com as mãos, para se certificar de que não ficará viva.

-Alô. Sim, gostaria de pedir uma outra esposa.

domingo, 24 de maio de 2009

Big Bang

Não há nada para ser dito
Nem tenho voz para contar
Não há mais ar para vibrar
Nem energia pra falar

Está escuro
Está deserto
Não há mais gente
Nem pensamento

Não há mais nada pra existir
Nem há o que ser existido
Os pensamentos que escrevo
Saem do vácuo infinito

Eu não sou nada
Nem minhas palavras
Não sou ideia nem ser vivo
Nem sei ainda se existo

Mas algo está para mudar
Um novo momento do destino
Tenho passado por mudanças
E elas tem passado por mim

Já não me sinto velho
Agora me sinto novo

Já não me sinto preso
Agora me sinto solto

Já não mais sinto medo
Me sinto corajoso

Já não preciso de algo
Não preciso de nada

Já não preciso aprender
Agora sei tudo que preciso saber

Já não preciso de amor
Eu sou amor

Já não preciso de paz
Eu sou paz

Já não estou aqui
Estou em qualquer lugar

Já não sou eu
Agora sou todos

E ainda assim,
Sinto que há muito por vir.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Destruo

Acordo
Abro os olhos
E grito
Muito alto
Os vizinhos acordam
Me levanto
Destruo minha cama
Vou ao banheiro
Mijo
Destruo a privada
Ando até a pia
Escovo os dentes
Destruo a pia
Vou até a cozinha
Pego comida na geladeira
Destruo a geladeira
Sento na mesa e como
Destruo a mesa
Pego meu carro
Dirijo até meu trabalho
Destruo meu carro
Entro no meu escritório
Trabalho até tarde
Destruo meu escritório
Saio para lanchar
Como na lanchonete
Destruo a lanchonete
Caminho para minha casa
Atravesso a rua
Destruo a rua
Chego em casa
Abro a porta
Destruo a porta
Entro no banheiro
Tomo um banho
Destruo o box
Vou até o armário
Pego um pijama
Destruo o armário
Sento para ver um pouco de TV
Vejo aquela porcaria
Destruo a TV
Vou até meu quarto
Me olho no espelho

Destruo minha imagem
Destruo minhas lágrimas
Destruo minhas mágoas
Destruo os meus medos
E destruo minha casa

Deito para dormir nos escombros
E grito
Muito alto

Os meus sonhos me acordam

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Homo Sapiens





Tudo caiu
Quebrou
Estilhaçou

Nada sobrou
E quem fui eu?
Que nada fiz
Talvez sonhei
Mas nada quis

Rapidamente
Talvez por uma fração de segundo
Pude compreender
Mas nada entendi
Assimilei
Mas nada aprendi

Sou Homo sapiens
Homem Sábio

Gostaria de saber
Tudo que pode ser sabido
Aprendido e ensinado
Que é segredo e clandestino

Me comunico com meus semelhantes
Ou pelo menos é o que tento
Todo dia é uma luta
Batalha do pensamento

DNA é a minha herança
Para a humanidade humanista
E de tão pequeno
Não pega na vista

Homens dominam a Terra
Sapiens para toda vida
As miticôndrias querem sair de mim
Para aproveitar melhor esta existência

Habito um mundo cheio de problemas
E sou o principal responsável por eles
Por que tudo tem que ser tão bem definido?
Por que definimos onde você acaba e onde eu começo?
Afinal de contas, somos todos um
Apenas é difícil percebê-lo com esses olhos
E senti-lo com esse coração

Talvez um dia tudo afunde na lava
E um novo inicio aflore

Menos injusto
E mais seguro

Com menos dor
E mais amores

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Gostaria de agradecer à Mila (http://milahope.blogspot.com/), que me indicou a esse selo!



Regras:

1º-Tenho que passar para 7 blogs.


2º-Devo responder a seguinte questão: O que significa para si ser um homo sapiens?
Leiam o poema acima...






domingo, 10 de maio de 2009

Bebê

No ar
Há uma faca
Em alta velocidade
Vindo em minha direção

Ela irá estraçalhar o meu cérebro
E o público irá gritar de emoção

Mas um bebê se lança contra a faca
E me salva

Ele diz que nasceu para me salvar
E eu lhe digo que nasci para ser salvo por ele

Pego o bebê e o enterro
Ali nasce uma bela flor
Me agacho e devoro esta flor

Sinto o gosto da infância perdida
Do que teria sido esta vida
E da coragem esquecida

No ar
Há uma bola de canhão
Em alta velocidade
Indo em direção a um bebê

Ela irá esmaga-lo
E o público irá urrar de felicidade

Mas eu me lanço contra a bola
E o salvo

A minha cabeça explode com a colisão
O meu cérebro, meu sangue, meu crânio
São lançados na plateia
Eles se deliciam com estas iguarias

Digo ao bebê que nasci para salva-lo
Ele me diz que nasceu para ocupar o lugar de minha cabeça

Pego o bebê e o coloco no lugar de minha cabeça
Agora tenho olhos, ouvidos, boca e nariz
Novamente
Agora tenho infância, esperança, inocência e tranquilidade
Novamente

Caminho por aí
Com minha cabeça de bebê
Agora somos dois
Enquanto somos um

Após algum tempo
Esse bebê se torna um homem
Somos muitos homens para um só corpo
Chega a sua hora de partir

Cortamos o cordão umbilical que nos une
E nos abraçamos como pai e filho
Ele me agradece por tê-lo salvado da bola de canhão
Eu lhe agradeço por ele ter servido de cabeça por tantos anos

No ar
Há uma faca
Em alta velocidade
Vindo em minha direção

Ela iria acertar o meu cérebro
Mas por sorte minha
Não há mais perigo
Pois não tenho mais cabeça

Mas ela passa por mim
E acerta o antigo bebê que era a minha cabeça
Isso o mata

O público finalmente fica feliz
Uma longa salva de palmas ocorre
Muitas lágrimas de felicidade
Gritos de emoção
O público se abraça e sorri

Afinal de contas
O que pode trazer mais felicidade
Do que um antigo desejo realizado?

terça-feira, 5 de maio de 2009

Éz

Éz é um homem comum, com direitos, a fazeres, e desejos comuns.

.....Todo os dias, às 08:00 AM, Éz se deita para dormir na sua sala de trabalho. Sonha com a sua morte e com o fim do mundo. Dorme como um velhinho de 90 anos. Mas nesse dia ele não estava com muito sono, resolve se levantar e fazer algo de produtivo. Logo seu chefe aparece:
.....-O que está fazendo? Volte a dormir.
.....-Desculpe, chefe. Não estou com muito sono.
.....-Dirija-se imediatamente para a Sala do Cansaço.
.....Éz tira seu pijama e veste uma roupa esportiva. Está na hora de se livrar de toda essa energia horrível que está em seu corpo. Chegando na Sala do Cansaço, ele veste um roupão de chumbo, que pesa 50 quilos. Um dos Instrutores do cansaço o aborda:
.....-Então, funcionário Éz, qual seu problema hoje? Já é a terceira vez esta semana que aparece aqui.
.....-Não sei, tenho me sentido muito disposto ultimamente. Não tenho conseguido dormir as 16 horas diárias necessárias.
.....-Muito bem, vamos ver o que posso fazer. Vamos começar com uma série de levantamento de peso.
.....O funcionário entrega a Éz um cubo de 100 quilos. Éz urra de desespero tentando levanta-lo. Despois disso, eles se encaminham para a piscina de mercúrio. Após vestir uma máscara protetora, Éz nada alguns minutos, mas são necessários quatro funcionários para retira-lo do fundo da piscina. Éz conseguiu ficar exausto.
.....Ele é carregado numa maca e colocado em sua confortável cama. Ele consegue completar sua cota diária de sono. Chegando em sua casa, encontra sua esposa e seus filhos.
.....-Olá, querido! Como foi seu dia? - pergunta Airam.
.....-Muito pouco produtivo, querida!
.....-Ah, que bom!
.....-E vocês crianças? Como foi no colégio?
.....-Não fizemos nada! - responde o filho, Sacul.
.....-Mentira! Ele se levantou da cama e ficou estudando geografia! - delata a filha, Ataner.
.....Éz se enfurece e diz que não gosta que Sacul faça esse tipo de coisa, que ele deve se esforçar para estar exausto no horário do colégio. Sacul diz que não tem conseguido ficar exausto ultimamente. Éz acha isso estranho, pois o mesmo tem acontecido com ele também.
.....No dia seguinte, o chefe de Éz convoca uma reunião de emergência com todos os funcionários.
.....-Estamos indo muito mal. Nosso nível de produtividade tem subido cada vez mais! Já é o terceiro mês seguido que produzimos algo. Vocês devem se esforçar mais para ficarem exaustos e dormir! O que estão pensando? Vejam o meu exemplo. Ás vezes consigo ficar dois dias seguidos dormindo sem parar. Apenas com muita dedicação se consegue esse nível de ócio.
.....-Chefe, parece que meus filhos e seus colegas também tem estado muito motivados para produzir. Acho que é uma reação coletiva da sociedade. Quem sabe uma campanha desmotivacional para acabar de vez com isso?
.....O chefe de Éz se encaminha para a prefeitura de sua cidade para conversar com o prefeito. Após alguns minutos, os funcionários da prefeitura conseguem acordar o prefeito, que dormia profundamente.
.....-É bom que seja importante - diz o prefeito, irritado com a interrupção.
.....-Mas é. Tenho notado que meus funcionários tem produzido acima do esperado. Não têm conseguido ficar ociosos, assim como seus filhos. Está parecendo uma reação da sociedade como um todo. Devemos tomar medidas drásticas.
.....Após pensar um pouco, o prefeito resolve investir pesado no assunto. Nos meses seguintes, todas as camas das escolas e repartições públicas são trocadas. Agora são modelos muito mais confortáveis e macios. Calmantes começam a ser distribuídos nos pontos de ônibus e estações de metrô. São criadas as Casas do Sono, onde os jovens passam a se reunir para dormirem juntos, um grande evento social. Também é criada a revista em quadrinhos do Homem-Sono, um heroi que possui super poderes do sono, como o de induzir o sono nos seus aliados, e insônia nos seus inimigos.
.....Em alguns meses, a situação da cidade se normaliza. Todos estão dormindo tranquilos, sem produzir coisa alguma, no mais perfeito ócio. Éz é condecorado funcionário do mês por conseguir dormir mais horas seguidas do que todos os outros funcionários juntos. Éz repete este feito por três meses seguidos, e então, seu chefe o convoca:
.....-Éz, por sua grande falta de esforço e desmotivação descomunal, irei promovê-lo. A partir de agora, você é vice-presidente da empresa.
.....Éz, com os olhos cheios d'água, abraça seu chefe, e diz que irá se esforçar para tornar-se o funcionário mais inútil da história.

domingo, 3 de maio de 2009

Poema de um Menino de 2 Anos

Eu gosto do papai
Eu gosto da mamãe
Eu tomo leite
Eu faço cocô

Brincar é bom
É melhor do que não brincar
Se não brinco durmo
Se não durmo brinco

As meninas são estranhas
Não possuem torneirinha
São chatas e implicantes
Tenho nojo de menininhas

Mamar é divertido
É uma bricandeira que alimenta
É bem melhor que papinhas
Aquelas gosmas nojentas

Papinhas são boas para brincar
Passar nas paredes e móveis de casa
Meu pai não gosta que eu faça isso
Ele não entende o prazer que isso me dá

Adoro brincar com os meus brinquedos
Nada melhor que espalhar todos eles pelo chão
De forma que não se possa caminhar no meu quarto
É tudo uma grande diversão

Espero mamar pra sempre
No bico daquelas tetas
Espero ter minha mãe para sempre
Me limpando e dando bronca

Quando escrevo nas paredes
Rasgo os meus livros
Me alimento de meleca
Ou tento engolir pequenos objetos

Depois de um dia cansativo
Chega a hora de dormir
Sonhar com os bichinhos
E muito xixi fazer

sexta-feira, 1 de maio de 2009

As Cores da Vida

Aqui vai um velho poema
Poesia de um outro tempo
Como um feixe de luz
Nos conduz de volta àquela época

Tempo sobre tempo
As ideias se embaralham
Os homens falam entre si
mas as palavras parecem não alcançar nenhum dos ouvidos

Vejo um pobre mundo de ideias surdas
E amores fracos
De calor dissipado
Sem amizades nobres

Uma nova página
Um outro dia

Minha vida pintada com novas cores
Novos dias me alucinam
Uma outra fala enaltecida

Várias almas
Muitas dores
Diversos significados
Um mesmo sonho

Sonhos, sonhos

Sonhos batidos
Sonhos largados
Sonhos de uma outra vida

Sonhos que ficaram esquecidos
Por outros sonhos soterrados
A nossa memória

Os caminhos de velhas estradas
estão levando a novos destinos
Um novo tempo amanheceu
Velhas ideias abandonadas

Tropeçando em suas cabeças
Caímos em uma enorme vala
Após quinze minutos de queda
Acordamos

Não somos mais o que conhecemos
Nem temos medo

Eu me vejo em você
Eu te vejo ao meu lado
Eu me vejo ao meu lado
Quando eu vejo você

Pense no que você mais gostaria de fazer em sua vida.
Pode ser algo que já aconteceu, ou que você queira que ainda aconteça.

Se imagine fazendo isso. Se sinta dentro da situação.

Os sons. Os cheiros. Os toques.

Tente criar ou recriar todo momento em sua mente.

Toda a experiência. Todo o sentimento.

Agora, imagine como você vai se sentir depois de o ter realizado.
A felicidade. O sentimento de realização.

Sentiram passar mas não sabiam o que era. Era como uma sensação diferente, como um calafrio. De vez em quando voltava. Sem avisar.

Pessoas gritando
No meio da noite

Canções e cantigas
De muitas gerações

E em suas mentes passam imagens
Sensações de uma vida inteira

Lá no fundo está escuro
E aqui tão claro

Essa luz que nos ofusca
Talvez nos traga alguma chama
Uma centelha de consciência
Ou uma consciência que chama

Saindo dessa luz
Somos coisa alguma
Nos transformamos em sombras
Em penumbras resplandecentes

Se olharmos bem
Do nada
Surgem as sombras