segunda-feira, 14 de março de 2011

A Missão

eu faria qualquer coisa por aquela mulher qualquer coisa ela era a mulher mais bonita do mundo ela tinha umas pernas uma bunda uns peitos eu não consigo parar de pensar nela eu poderia fazer qualquer coisa imaginável por aquela mulher eu te quero o que devo fazer para te ter posso fazer de tudo mesmo qualquer desejo seu eu realizarei me esfolarei me acabarei me humilharei todo para te ter o que você quer que eu faça quer que eu largue o meu emprego alô chefe sou eu mesmo olha só gostaria de lhe informar que estou pedindo demissão é isso mesmo não não há como voltar atrás pois eu quero muito ficar com ela a mulher mais linda do mundo não posso mais trabalhar aí desculpe pronto larguei o meu emprego por você só por você eu faria algo assim não vou mais ter dinheiro pra comprar nada mas isso não importa o que importa é te ter ao meu lado a qualquer momento que eu queira o que preciso fazer para te ter meu amor quer que eu mate meus pais eu mato pode deixar estou entrando na casa dos meus pais oi pai oi mãe vim aqui fazer um negócio rápido só estou jogando gasolina nos corpos deles e estou acendendo um isqueiro estou colocando fogo em seus corpos e saindo do apartamento posso ouvir eles agonizando em dor pronto já matei meus pais está feliz agora podemos ficar juntos nada mais nos separa seremos apenas um o que você quer que eu faça por você quer que eu mate os meus filhos isso é fácil vou matá-los agora mesmo agora estou quebrando o pescoço da minha filha e agora estou fraturando a coluna do meu filho do meio e estou arrancando fora a cabeça do meu bebê tá saindo muito sangue pronto agora a minha atual mulher está chegando em casa e está vendo que matei os nossos filhos é isso mesmo eu quero o meu amor e farei o que for necessário ela está partindo pra cima de mim e estou socando o rosto dela já estou socando seu rosto há uma meia hora acho que ela não está mais respondendo seu coração parou mesmo pronto já os matei senti muito prazer destruindo a vida de cada um deles pois isso me tornava um pouco mais seu um pouco mais perto de te ter inclusive matei a minha mulher você não pediu mas eu tive que matá-la ela não gostou de ver nosso filhos mortos o que posso fazer o que você quer que eu faça quer que eu mate o resto da minha família eu mato estou numa festa e todos os meus primos tios avós parentes distantes que só vejo no natal eles estão todos aqui em casa estou chamando todos para a sala gente gostaria de fazer um brinde a todos nós esse é um momento muito especial pra mim pois finalmente vou poder ficar perto do meu amor só isso importa pra mim agora fico muito feliz que todos tenham vindo fico agradecido a cada um de vocês pois sem vocês isso não seria possível agora estou pegando a minha metralhadora e estou atirando em toda a minha família alguns ainda estão tentando correr mas eu tranquei as portas todas não há como sair vou matando cada um deles estou metralhando cada parte do corpo de cada membro da família para garantir que nenhum deles sobreviva e finalmente termino de matar o último de todos ele havia se escondido no armário do quarto você pensa que eu sou idiota que iria deixar você escapar de jeito nenhum não iria deixar de ficar com o meu amor por causa de um ser insignificante como você você achou mesmo que poderia me atrapalhar na minha missão agora eu sou só seu meu amor a minha família não existe mais não há nada mais que possa me roubar de você temos agora um ao outro juntinhos podemos ficar juntinhos agora é dezembro me abraça forte que está frio

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Amoras

Numa sala de aula.

—"Eu sou uma amora, bela e resplandecente, no meio do jardim". Repitam.
—"Eu sou uma amora, bela e resplandecente, no meio do jardim" — repetem as crianças.
—Isso, muito bem. Lembrem-se de que quando vocês dizem esta frase, vocês se tornam ela.
—Sim — articulam as crianças com suas bocas cheias de saliva a escorrer para dentro de seus potes de sorvete.
—Vamos lá, repitam mais uma vez!

Então, as crianças que agora eram amoras belas e resplandecentes, no meio de jardins, repetem:
—"Eu sou uma amora, bela e resplandecente, no meio do jardim" — e as crianças se tornam ainda mais belas e resplandecentes amoras no meio de jardins.

A professora caminha e caminha por entre jardins encantadores e ensolarados, repletos de amoreiras cheias de amoras maduras, belas e resplandecentes. A professora sobe numa das árvores e colhe uma das amoras.

—Mas que amorazinha mais bonitinha!
—Haha, obrigada, querida professora!

A professora escancara sua boca e se prepara para abocanhar a pequenina amorazinha.

—O que você está fazendo, profess...

Antes que a indefesa aluna termine sua frase, a professora arranca impiedosamente um pedaço de sua bochecha. Os alunos se assustam e berram loucamente, assustados, enquanto veem o sangue jorrando da cabeça da coleguinha.

—Nossa, mas que amora mais deliciosa — a professora diz após mastigar e engolir o pedaço de amora.

Ela caminha mais um pouco pelos campestres jardins. Mas são tantas amoras! Agora venta bastante, as amoras todas se balançam e se agitam, como se estivessem correndo de um lado para o outro.

A aluna agoniza em espasmos, tentando estancar o sangue que escorre de seu rosto, e seus coleguinhas, assustados, tentam fugir da sala de aula.

—Venham cá, amoras! Preciso de vocês dançando em meu estômago.

E as crianças gritam esmurrando a porta da sala de aula, que não conseguem abrir. Uma das alunas, a mais esperta, pensa e diz:

—"A professora é de chocolate e podemos comê-la", repitam, repitam!
—"A professora é de chocolate e podemos comê-la" — repetem as amoras, e o corpo da professora passa a ser de chocolate.

Os alunos correm em direção à professora, com o intuito de destruí-la, e esta passa a fugir dos alunos.

As amoras se chocam contra o chocolate, ficando marrons e lambuzadas, num grande pote de sorvete prateado.

O sorvete arromba a porta da sala de aula derrubando os alunos e a professora, levando-os para fora da sala de aula, através da porta.

O sorvete de amoras achocolatadas adentra a boca do menino, que babava abundantemente em cima de seu pote, e cai em seu estômago, além de cair um pouco também em sua roupa. A professora e os alunos acordam numa sala escura, de onde não podem mais sair.

Em alguns momentos o estômago do menino começa a digerir as amoras achocolatadas, o que o faz passar muito mal, uma vez que ele comeu mais do que devia. O menino vomita dentro do pote de sorvete prateado, devolvendo todos à sala de aula.

A professora pede desculpas às amoras pelo que fez, dizendo que perdeu a cabeça durante a aula. Os alunos dizem que a perdoam e declaram a ela todo o seu amor, de forma satânica e onomatopaica, mas silenciosa, apenas utilizando os sinais de odor que o corpo emite, num silêncio gritante de horror infantil angelical.

Então a mãe do menino pega o pote de sorvete vomitado e fica com tanto nojo que o joga direto no lixo.

—Você não sabe comer direito, é realmente um porquinho — diz mãe para o porquinho que agora rola numa poça de lama no meio de um jardim, ao lado de uma amoreira de frutos belos e resplandecentes.



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O conto, escrito a convite de Daniel Ribas, mestre de cerimônia do último Clube da Leitura (evento literário que acontece aqui no Rio de Janeiro), apesar de totalmente insano, foi o mais votado da noite; postado originalmente aqui, no blog do evento.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Novidades

O blog anda um tanto parado, eu sei. (sim, esse sou eu, Rafael, falando, e não um personagem estranho/grotesco/enlouquecido).

Mas isso se deve a bons motivos. Tenho trabalhado bastante desde o fim do ano passado (o que é bom), e isso me tem feito escrever pouco (o que é ruim).

No entanto, tenho ótimas notícias.
Estou organizando meu primeiro livro, de contos, que vai sair pela editora Oito e Meio, em breve, tudo indica. No momento estamos terminando de selecionar e definir o material que fará parte do livro (o que é um tanto angustiante) e iniciando as revisões finais. Por enquanto é só; mais adiante lhes deixo a par do que estiver acontecendo.

Enquanto isso, visitem o site da editora. Lá é possível ler textos de alguns autores novos, na seção de Textos, incluindo um meu que pode ser visto aqui. E a quem interessar também, é possível comprar a Antologia de Prosa Plástico Bolha, lançada no final do ano passado, e sobre a qual falei um pouco neste post aqui.

Inté.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Cenas Cotidianas

Estava espancando minha octogésima sexta mulher com um coador grave cintilante de gengibre turco modificado, quando o meu cachorro gângster exclamou:

—Céus! Esqueci as chaves pardas do carro gelatinoso na gruta ecumênica gastro-esofágica, no lado Amarelo da faixa.

Por isso, meu tio anglo-cossaco pensou que talvez fosse uma boa ideia parir para dentro de um saco plástico cerimonioso, seria algo menos lúgubre e fútil do que direto na tumba familiar. Então continuou tocando bateria.

No instante em que bateu o bumbo pela quadragésima nona vez, o birmanês cilíndrico do outro lado da rua ejaculou no olho de cerâmica de seu avô materno, que por acaso estava a passar por ali no exato momento, praticando a recitação dos nomes dos gases nobres na ordem reversa e articulando, alternadamente, cada sílaba com uma expressão facial diferente.

O grito rouco e andrógino de excitação da bisneta ao presenciar tal acontecimento levou seu irmão tecnocrata mais novo a desenvolver uma tomomania momentânea, que acabou evoluindo para uma tricotilomania grave de terceiro grau.

A webcam que os filmava pifou, então o segundo cavaleiro do apocalipse entoou seu célebre poema sobre o citomegalovirus prostático que foi condenado no século XVIII por esquartejamento de cavalos culposo.

Para realizar tal façanha, o citomegalovirus teve que viajar de Ouagadougou a Bujumbura num eneágono motorizado de 100.000km de comprimento.

Seu adestrador ficou tão contente com tal realização que resolveu fundar, naquele instante, a Igreja Marsupial Não-Judaica Romana Otomana Horizontal dos Estados Unidos da França Eslava Berinjélica.

Durante o louvor tântrico que se seguiu, seus alunos de meteorologia motossérrica, por displicência, acabaram inalando todo o bário obpiriforme, que estava misturado ao antimônio sílico ungüiforme, num pote de sorvete.

O dono Medicinae Doctor Heresiólogo da fábrica de sorvetes nada gostou disso. Ficou tão deprimido que se encolheu num canto de sua masmorra esférica favorita e ficou lambendo, até a morte, sua edição original de "The Birds of América", de John James Audubon, que comprara por £7,321,250, utilizando o dinheiro que conseguiu vendendo todos os pertences avermelhados de sua família começando pela letra A.

Por isso, tomo muito cuidado ao me candidatar a algum cargo público.

domingo, 12 de dezembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Antologia de Prosa Plástico Bolha

Hoje, no CEP 20.000, acontece o relançamento da Antologia de Prosa Plástico Bolha, aqui no Rio de Janeiro, no Espaço Sérgio Porto, Humaitá, às 20:30.

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Primeiro projeto editorial da Editora Oito e Meio, a Antologia de Prosa Plástico Bolha, organizada por Flávia Iriarte, fundadora da Editora Oito e Meio, e Lucas Viriato de Medeiros, idealizador do jornal literário Plástico Bolha, consiste numa cuidadosa seleção de 35 contos de 32 contistas que foram publicadas no Plástico Bolha ao longo de seus 5 anos de existência.

Já tive a oportunidade de ler o livro, e posso dizer que os textos possuem estilos bem variados, uma vez que seus autores vêm de experiências acadêmicas e profissionais bastante distintas, o que torna a leitura agradável e nunca monótona; e apresentam desde as mais delicadas e poéticas situações do cotidiano até os mais loucos e curiosos devaneios surrealistas. Vale lembrar que alguns dos autores já foram publicados, e com trabalhos reconhecidos, como Alice Sant'anna, Augusto Guimaraens Cavalcanti, Tatiana Salem Levy, e Camila Justino.

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Pra quem é de fora do Rio, a antologia pode ser adquirida através do site da editora, pelo link http://www.oitoemeio.com.br/404/catalogo/404/

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Manual de Comportamento

Hoje é dia de aprender a como se comportar da forma correta, para que as outras pessoas não pensem que você é estranho(a) ou deslocado(a) socialmente. Existem certas normas sociais que devem ser seguidas para que você seja percebido(a) como alguém que sabe se comportar. Isso irá fazer com que os outros seres humanos queiram estar perto de você, queiram abraçar você, queriam amar você, queriam trepar loucamente com você, queiram ter 25 filhos com você, queiram elegê-lo(a) o ser humano mais foda do mundo, queriam morrer por você, e, por último, que queiram matar por você.


Primeira lição: Defecar em um banheiro público comum - um manual prático

É importante ressaltar o caráter privado que o ato da defecação possui. Há muitos séculos, o ato de defecar é associado a um momento só seu, no qual mais ninguém deve interferir ou ajudar. Defecar significa estar a sós consigo mesmo, é despejar no mundo o que, por alguns momentos, foi seu, e que só você pode se livrar daquilo.

Portanto, quando quiser defecar, vá para um local ermo, vazio, solitário. De preferência utilize um banheiro limpo. Dentro do banheiro você deverá encontrar um dispositivo com água no seu interior, o tal "vaso sanitário", ou "privada" (mais uma vez aqui podemos notar o caráter privado do ato de despejar nossos dejetos; a palavra "privada" é simplesmente o feminino de "privado"). Avistando a privada, você deverá remover a roupa de seus membros inferiores; no caso de ser homem, remover suas calças, shorts, bermudas, cuecas ou sungas. No caso de ser mulher, suas calças, saias, vestidos, calcinhas ou biquínis. É interessante lembrar que algumas pessoas gostar de praticar este ato solitário totalmente nus, por se sentirem mais à vontade, mas isso é totalmente desnecessário. Após remover a parte inferior de suas vestes, abra a tampa da privada e sente-se na tábua do vaso. É importante não se sentar diretamente no vaso, pois ele certamente estará mais sujo que do que a tábua (a não ser que alguém tenha despejado seus dejetos diretamente na tábua, o que é pouco provável), e, geralmente, a abertura do vaso é maior do que a de sua tábua, de forma que é possível que você caia dentro do vaso caso tente sentar-se dessa forma. Muito bem, agora que você está sentado(a) no vaso, o processo de defecar (ou "cagar", como se diz popularmente, ou ainda, "fazer cocô", como dizem as crianças ao se referirem ao ato) irá, de fato, se iniciar. Relaxando seu esfíncter, e contraindo as paredes de seu reto fará com que as fezes saiam de dentro de seu corpo. Não se preocupe, quando isto estiver acontecendo você certamente irá notar. Relaxe, e deixe que toda a matéria fecal seja eliminada. Ao término desta etapa, você deverá realizar uma limpeza da região anal, seja utilizando o "papel higiênico" (encontrado na maior parte dos banheiros), que deverá ser utilizado sendo esfregado manualmente contra seu ânus sujo (você deverá utilizar várias amostras desse papel, até que o ânus aparente estar limpo) ou utilizando o "bidê", dispositivo que no qual nos sentamos, e que lança água verticalmente, em direção ao seu ânus, a uma alta velocidade e pressão, fazendo uma excelente limpeza anal.

Pronto, agora você já terminou de defecar. Vista-se, lave as mãos e saia do banheiro. Antes disso, verifique se o banheiro não ficou com um fedor muito forte. No caso disso vir a acontecer, utilize um desodorizador, para que um cheiro agradável e perfumado se espalhe pelo banheiro, fazendo com que o próximo usuário do banheiro não tenha ânsias de vômito ao adentrar o recinto.




Segunda lição: Comendo em local público.

Todos nós já nos perguntamos: qual a melhor maneira de comer? Como tornar este um ato agradável e elegante? Como ser bem visto pelos outros na hora de se alimentar?

O mais importante é não fazer muita sujeira. Deve-se derramar o mínimo de comida na mesa, no chão, e nas suas roupas (e nas dos outros). Lembre-se de que comer deve significar elegância e estilo. Você não precisa comer feito um lorde inglês, mas alguns poucos bons modos serão muito bem vindos quando estiver num local público.

Um desses bons modos é não comer com as mãos. Existem ferramentas conhecidas como "talheres" que são utilizadas há alguns séculos; não utilizá-los é grave gafe à mesa, você será visto como um ogro, ou como um animal selvagem. Podemos abrir exceção para os seguintes alimentos, que tradicionalmente são comidos com as mãos, como, por exemplo, sanduíches, alcachofras, batatas chips, caranguejo, e milho. É importante não brincar coma comida. Por mais que isso seja tentador, fazer pequenas esculturas ou chocar um alimento contra o outro de forma que a comida voe para fora do prato são atos de selvageria aguda.

Levar o rosto diretamente ao prato é considerado, em geral, deselegante. Uma das razões é que, comendo desta forma, certamente alguma comida irá grudar em seu rosto, principalmente em torno da boca, o que não é algo bom. Tomar sopa desta forma fará com que se assemelhe a um cão bebendo água. Um outro motivo é que muitos alimentos, como carnes, precisam ser cortados em pedaços menores, e comendo com o rosto diretamente no prato fará com que você tenha de utilizar as mãos também no processo, o que nos leva ao motivo já mencionado no início do parágrafo anterior.

É importante lembrar de comer de sempre de boca fechada; assim que levar o alimento à boca, feche-a imediatamente, de forma que a comida não caia para fora - o que nos leva a algo que recomendo fortemente, que é não mostrar a comida que está dentro de sua boca para os outros da mesa. Isso é considerado um ato incrivelmente nojento e fará com que as pessoas tenham ânsia de vômito, além do perigo da comida cair para fora de sua boca e lhe sujar, ou sujar a mesa, ou outra pessoa.

Arrotos e peidos não são bem mais vistos socialmente. Segures os gases e os libere no banheiro. Essa lição vale para outros tipos de encontros sociais como shows, peças de teatro, cinema, festas em apartamentos, etc.

Lembre-se: comer deve significar limpeza e elegância, e não sujeira, nojeira e selvageria.




Terceira lição: Bebendo água em público

Veja bem: se você quiser, em sua casa, sozinho, beber água de uma forma estúpida, nojenta, retardada e grotesca, é problema seu e de mais ninguém. Ninguém vai saber mesmo. Mas caso você resolva se deleitar em público com esse líquido magnífico que a natureza nos proveu, deverá seguir algumas normas socialmente estabelecidas, ou pelo menos não poderá passar de certos pontos.

A água deve ser colocada, de preferência, em um copo. Pode-se beber diretamente de uma garrafa, mas tão somente se a garrafa for de uso exclusivo seu. Quebrar esta regra fará com que as pessoas lhe considerem um porco.

Também é deselegante colocar a boca diretamente na torneira ou filtro. É algo um tanto animalesco se for pensar, além de que você facilmente se engasgará.

Beba água de forma que ela não caia para fora de sua boca. Embora isso seja relativamente fácil de acontecer, deve-se evitar que isso aconteça. Por isso, não beba com a boca aberta demais, como se estivesse bocejando, pois isso fará com que você tenha pouco controle da água que entra, e nem com a boca fechada demais, já que isso dificultará a sua entrada, fazendo com que a boca não comporte o fluxo de água que entra e a água transborde para os lados do copo.

Algumas outras coisas que deve-se evitar é beber falando ou gritando. Grandes chances de que você engasgue, e os outros não irão entender o que você fala. Também deve-se evitar fazer outras coisas com a mão que está levando o copo à boca, como, por exemplo, ajeitar o cabelo com a mesma mão que segura o copo, a água acabará sendo derramada em você mesmo, talvez no seu cabelo.

Nunca jogue água nas outras pessoas, especialmente em situações formais, pode causar grandes constrangimentos, você será taxado de "retardado" ou "mongoloide".




Quarta lição: Falando em público.

Falar. Um ato tão nobre. Expor ideias, anseios e opiniões. Uma das poucas coisas que nos separa dos animais irracionais. Então por que não falar de forma correta, bela e elegante? Quando estiver falando sozinho pode-se abandonar essas regras, mas em público deve-se levá-las em conta.

Assim como no ato de beber água, não se deve falar nem com a boca aberta demais, nem com a boca fechada demais. Falar tanto com a boca muito aberta quanto muito fechada fará com que você não articule as sílabas da forma correta, fazendo você parecer uma pessoa idiota que não aprendeu a falar, além de que as pessoas não o compreenderão. Fale com a boca aberta na medida certa, abrindo a boca somente o necessário. Enquanto não estiver falando é recomendado que feche completamente a boca. Ficando com a boca aberta você corre o risco de que algo caia lá dentro, ou de se passar por maluco e doente mental, especialmente se resolver ficar com a boca escancarada.

Na hora de falar você deve estar a uma distância compatível com o seu volume de voz e de intimidade com a pessoa. Falar com a boca colada ao ouvido de alguém é reservado somente a parceiros sexuais. Quando quiser fazer isso, não grite, de preferência, sussurre. Gritando fará com que a outra pessoa sinta grande desconforto e raiva de você, o fazendo parecer um deslocado social. Falando de longe requerirá uma grande potência vocal. Quanto mais longe, mais forte deverá ser sua fala. Não recomendo que converse com alguém que esteja a mais de 45 metros de você, especialmente se for um assunto muito sério ou complexo.




Quinta lição: Se matando em público.

Suicidar-se. O ato libertário final; o ato egoísta que nos leva desse lugar tão estranho e sombrio que é o nosso planeta. Se vamos, antes da hora, partir dessa pra uma melhor, por que não fazê-lo com estilo, limpeza e bons modos? Se você é sozinho no mundo, e/ou quer se matar num local privado, tudo bem, exploda-se, estraçalhe-se, mas ao se matar em público é recomendado que siga algumas recomendações.

Não estraçalhe o seu corpo, de forma alguma. Não se jogue em algum triturador, ou esmagador. Isso atrapalhará sua família a recolher seus restos, e tornará este processo um tanto nojento.

Não decepe pedaços seus. Não corte seu tronco ao meio, ou a cabeça, as penar ou os braços. Você perderá muito sangue e pedaços internos seus poderão sair para fora, o que é nojento.

Uma forma limpa de se matar é com o gás de cozinha, ou tomando algum veneno por via oral. As pessoas ficarão tristes (ou não) com a sua morte, mas ao mesmo tempo felizes por não terem que recolher seus pedaços (se matar em público com gás de cozinha é um tanto perigoso, pois mais pessoas acabarão morrendo com você. Caso sejam pessoas que você não aprecia, tudo bem. Senão, evite esta forma de morte).

De preferência, não se mate em locais públicos. Assistir a pessoas se suicidando não é o que se espera de um domingo no parque com seus filhos. Muito menos quando você for se matar utilizando uma dinamite amarrada ao tronco.



Este foi um manual prático em 5 lições. Esperamos que faça bom uso delas.




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Gostaria de agradecer a todos que votaram em mim para o prêmio Topblog. Não fiquei entre entre os 3 finalistas da categoria, infelizmente. No entanto, durante a votação, fiquei entre os 30 mais votados, o que já é alguma coisa. Obrigado a todos!

domingo, 7 de novembro de 2010

Um reflexo dos dias de hoje

Depois de passar a noite em claro, o pai consegue conversar com o médico, que sai de dentro da sala de parto.

—E então, doutor?
—Pode ficar tranquilo, a criança nasceu! E sua esposa está bem, está descansando agora.
—O bebê está bem?
—Sim, está, é uma criança saudável.
—Ah, graças a Deus! Me diga, é menino ou menina? Estou curioso, o ultra-som não conseguia dizer o sexo da criança por algum motivo desconhecido...
—É, gostaria de conversar com você sobre este assunto. Vamos para a minha sala.

Eles caminham alguns metros até a sala particular do médico na casa de saúde.

—Não estou entendendo, qual o problema? Gostaria de ver meu filho. A criança não nasceu saudável?
—Sim, nasceu... é que... bem...
—Diga, doutor, qual o problema? E qual o sexo da criança?
—É aí que está o problema. Nós não sabemos.
—Como assim?
—O sexo da criança é ambíguo.
—Ambíguo?
—É.
—Mas... como? Ela é hermafrodita?
—Não, nada disso. Você tem que entender, é um reflexo dos dias de hoje. Algumas crianças têm nascido assim. Essa dicotomia feminino/masculino está sendo lentamente abandonada pela nossa espécie.
—Nossa, não tinha noção disso. Esta parece ser uma péssima condição para meu filho, digo, filha, enfim, talvez seja uma pessoa socialmente excluída por esta razão.
—Diria que não; isso pode ser estranho para pessoas da nossa geração, mas com as novas será diferente, pois é um fenômeno crescente. Cada vez mais crianças têm nascido assim. A geração de seu filho achará isso algo normal. Alguns cientistas estão até propondo que seja criada uma denominação nova, algo que indique um terceiro sexo, algo tipo mascufêmeo, ou femimásculo, ouvi dizer.
—Isso é realmente estranho, não faz sentido pra mim. Mas e o formato do órgão sexual? Não deixa evidente o sexo do bebê?
—Bom, é meio difícil de explicar, seria melhor que visse com seus próprios olhos. Por que não vamos lá ver a criança?

Eles caminham até a sala de parto. A esposa está dormindo. Os dois se aproximam do berço onde o bebê se encontra sob os cuidados de uma enfermeira.

—Aqui está seu bebê - diz a enfermeira.

O pai o toma em seus braços, emocionado, e o observa por algum tempo.

—É, doutor, você tem razão, seu sexo é ambíguo mesmo.
—Não falei?
—Olhando assim fica difícil dizer se é menino ou menina.
—Pois é. Talvez isso não seja mais tão importante, no final das contas.


domingo, 31 de outubro de 2010

Eleições em Trangabuja

Em Trangabuja, os ânimos estavam muitos exaltados; era dia de eleição. Era já o segundo turno e as pessoas se preocupavam muito com o resultado do pleito. Com o passar das semanas, as discussões entre eleitores de candidatos diferentes se tornou um tanto acalorada. Num caso de discordância ideológica, o que seria uma simples conversa acabava se transformando num assassinato não premeditado. Diversas confusões e porradarias aconteciam a todo momento, não se podia mais caminhar sossegado pelas ruas.

—Por que você matou aquele cara com uma marreta de quebrar concreto e ficou batendo em sua cabeça até transformá-la em uma gosma vermelha?
—Ah, não sei... cara, você tem que entender, fiquei um pouco alterado. Ele não tinha cara de que ia votar no Glonzius.

Apesar do clima bélico, as pessoas saíram de suas casas e, caso não tenham sido assassinadas no caminho até suas zonas eleitorais, votaram. Havia duas possibilidades: os candidatos Glonzius e Catrapilas. Apesar de suas propostas governamentais serem extremamente semelhantes, de os dois prometerem as mesmas coisas, e de seus partidos serem igualmente corruptos, os habitantes de Trangabuja insistiam em guerrear energicamente por seus candidatos preferidos.


O Glonzius é o mais bonito e sensual. E, além disso, veja só, ele canta ópera! Não ouviu ele cantando no horário eleitoral?
Sim, ouvi. Mas prefiro Catrapilas, ele pode não ser tão bonito e sensual, mas pelo menos ele canta funk com muita delicadeza, feito um lorde inglês.


Em Trangabuja, além de suas propostas de governo, os candidatos deveriam demonstrar suas capacidades físicas, pois, para governar um país deve-se estar preparado para tudo, inclusive para combater o inimigo numa eventual guerra. Os candidatos apareciam em seus programas eleitorais fazendo musculação, com seus corpos besuntados de óleo. Vários closes eram dados em seus corpos, demonstrando como determinadas áreas de seus corpos eram muscularmente desenvolvidas. Cada candidato exibia seu órgão sexual, e, através de imagens alteradas por computação gráfica, diziam ter o maior pênis e as maiores bolas, pois isso indica alta capacidade viril de liderança. Os candidatos então apareciam espancando uma pessoa até a morte, exibindo seus dotes de força e maestria nas artes marciais, afinal, um presidente precisa saber punir alguém que o traiu.


—Pra mim, presidente tem que ter pau grande, pelo menos 19cm. Fala sério, o cara vai ter que comandar uma nação!
—É, bem, não sei se isso realmente importa... diria que o tamanho das bolas é mais importante.


Visando alcançar as camadas mais jovens, os candidatos apareciam fazendo coisas como jogar jogos de video game extremamente violentos, falando como haviam zerado determinado jogo diversas vezes no nível hard. Na night, pegando garotinhas, demonstrando sua lábia e virilidade. E outras coisas tipo saltar de paraquedas, ou domar leões. Visando alcançar as camadas mais velhas da população, apareciam fazendo coisas como jogar xadrez ou bocha, ou então parados em suas casas, sem fazer nada, com cara de sofrimento.


—Veja bem, Glonzius admitiu que, realmente, seus funcionários comem cérebros de crianças entre 1 e 3 anos de idade, e que eles as têm sequestrado em portas de creches municipais. De qualquer forma isso não importa: embora ele tenha dito que não vai afastar os funcionários, ele reconhece que eles erraram, afinal, errar é humano. O que importa é que ele vai nos ajudar. Prometeu construir mais creches municipais.
—Ah, sim, claro, ele é, de fato, um ótimo candidato.



***


Após o término da votação, os votos começaram a ser contados. Estavam acontecendo diversas festas por todo o território de Trangabuja, cada qual designada para celebrar a vitória de um dos dois candidatos. Nessas festas, além de comidas e bebidas, eram distribuídas armas para que, no caso do outro candidato ganhar, as pessoas pudessem sair pelas ruas assassinando quem tivesse contribuído para isso acontecer.

Telões exibiam a apuração em tempo real e a todo momento as pessoas gritavam e urravam o nome de seus candidatos. Com o passar das horas, pôde-se notar que a diferença de votos seria muito pequena. Até que a apuração terminou e um grande silêncio sepulcral se instalou pelo país. O noticiário informava que ambos os candidatos receberam, exatamente, 51.456.769 votos. Havia dado empate. As pessoas ficaram um tanto confusas, isso nunca havia acontecido antes, a chance disso acontecer era, obviamente, ínfima.

Até que o presidente do TSE apareceu nas telas de todo o país dizendo que, de acordo com uma lei muito antiga, os candidatos à presidência, caso empatassem numa votação de segundo turno, deveriam duelar até a morte. A população soltou urros de alegria.

Então, cada candidato se encaminhou para o local designado para o confronto, um ringue de luta livre, desses com grades em volta, de forma que nenhum deles pudesse escapar. O juiz chamou os dois inimigos ao centro e disse que de acordo com essa antiga lei, esse combate não possuía regras. E deu inicio à luta.

Os candidatos se espancaram loucamente. Vários eventos aconteceram ao longo de um combate tão sangrento quanto nojento, como a dilaceração do órgão sexual do outro com os dentes, o espancamento do ânus do adversário, o arrancar de dedos com auxílio dental, o urinar na face do oponente. O combate demorou horas e horas. Após algum tempo não se podia mais ver o chão do ringue, estava coberto de sangue, urina, fezes, cabelos e roupas dos adversários. Até que num determinado momento os candidatos correram um em direção ao outro e chocaram suas cabeças. Como seus crânios estavam muito fragilizados devido a diversos espancamentos e esmagamentos, suas cabeças explodiram com o choque, matando os dois candidatos na hora.

Após alguns momentos, nos telões espalhados pelo país, apareceu o presidente do TSE dizendo que, de acordo com a tal antiga lei, caso os dois candidatos falecessem durante o combate, que o novo presidente do país seria um chimpanzé. A lei também dizia que o presidente do TSE que iria escolher qual chimpanzé iria assumir o cargo. Sorrindo, ele exibiu o chimpanzé que seria o novo presidente do país. Então, sorrindo, o chimpanzé jogou um bolo de bosta na sua cara.


domingo, 24 de outubro de 2010

O Dispositivo Luminoso

No espetáculo teatral de um determinado artista, foi adotado um dispositivo luminoso capaz de exibir mensagens; textos curtos. O objetivo do aparelho era fazer o público compreender melhor o monólogo (que era composto de diversos textos, muito contrastantes), exibindo mensagens que elucidassem o caráter de cada trecho da obra. Embora não fosse considerado pelo artista como algo essencial, o dispositivo vinha sendo empregado também em diversos outros espetáculos da época, e o público estava começando a se acostumar com sua utilização.

Portanto, durante o espetáculo, quando o artista interpretava, por exemplo, um texto cômico, o dispositivo mostrava, em letras grandes e vermelhas: TEXTO CÔMICO; quando um texto triste, era exibido: TEXTO TRISTE; ou quando lia um revoltante: TEXTO REVOLTANTE.

O público, seguindo à risca o que era exibido pelo dispositivo, ria nos textos cômicos, chorava nos tristes, e se revoltava e gritava durante os revoltantes.

Várias semanas se passaram com o dispositivo funcionando perfeitamente; até que por falta de sorte, durante um determinado espetáculo, o dispositivo começou a apresentar problemas.

Durante alguns segundos, o dispositivo piscou de forma desordenada e exibiu letras aleatórias, ao acaso, até que voltou a exibir uma mensagem novamente. Isso aconteceu durante um texto cômico, e o público, que estava rindo, passou a chorar, copiosamente. O artista estranhou, e, para sua surpresa, quando olhou para o dispositivo, estava sendo exibida a mensagem "TEXTO TRISTE". A mesma situação se repetiu no texto seguinte, que era de caráter revoltante; durante a encenação, o dispositivo, que exibia a mensagem "TEXTO REVOLTANTE", passou a exibir "TEXTO CÔMICO", e o público, que estava berrando revoltado, passou a gargalhar das palavras revoltantes do artista.

Após alguns momentos, o aparelho começou exibir letras aleatórias e a soltar fumaça, até pifar de vez, de forma que nenhum texto mais pode ser exibido para o público. No momento em que isso aconteceu, foi possível ouvir um barulho, não muito alto, mas que conseguiu chamar a atenção do artista, que percebeu o que acontecera.

Por não se tratar de algo vital para a execução do espetáculo, o artista continuou a encenação.

Para a sua surpresa, depois da falha do dispositivo, o público parou de responder aos textos. Como o dispositivo nada mais mostrou, o público não mais riu, chorou ou se revoltou aos gritos, e assim permaneceu até o fim do espetáculo. As pessoas, simplesmente, ficaram sentadas, apáticas, olhando para o palco, em silêncio, aparentando não estar mais entendendo o conteúdo do texto representado.



domingo, 17 de outubro de 2010

Prêmio TOPBLOG


Pra quem ainda não sabe, o Top Blog é o prêmio mais importante da blogosfera brasileira, e o Somesentido ficou entre os 100 blogs mais votados de sua categoria (Cultura, blog Pessoal) no primeiro turno da votação.

Para que eu figure nesse seleto grupo, precisarei do seu voto. Agradeço àqueles que já votaram em mim na primeira fase, e peço pra quem puder que indique meu blog. Vale lembrar que os votos da primeira fase não contam na segunda, por isso, peço para quem votou na primeira fase que vote novamente.

Pra quem ainda não votou, é fácil:

1-)Clique no link
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Agradeço a quem puder votar!