.....Era 00:30. Eu não gosto de Tarantino. Ok, eu até gosto, mas... não é arte. Bom, mas o que é arte? Tarantino me deixa feliz. Mas, o que traz felicidade é arte? O filme do Tarantino havia me deixado feliz. Caminhei rápido pela Senador Vergueiro. Não muito, apenas o suficiente. A rua não estava deserta, mas também não estava cheia. Meio deserta para os pessimistas, meio cheia para os otimistas. A temperatura não estava gelada, mas também não estava quente. Um pouco abafado, eu diria, embora o vento abrandasse a sensação. Odeio quando está abafado. Meio quente, para os pessimistas, meio frio para os otimistas. Isso se a pessoa for otimista e gostar de frio. Se não seria o contrário. Chegando ao portão do prédio ainda olhei para trás, conferindo se havia alguém por perto. Ou me seguindo. Sempre faço isso, embora nunca haja alguém me seguindo. Paranóia.
.....Enfiei a mão no bolso para pegar as chaves. Mas como eu não gosto de andar com bolsa ou mochila, meu bolso estava lotado de coisas. Havia meu celular, meu querido pano siliconado para a limpeza de minhas lentes oculares, o papel que envolvia o canudo que utilizei para tomar refrigerante enquanto assistia ao filme do Tarantino, que havia me deixado feliz, embora não fosse arte, mas o que é arte não precisa deixar a gente feliz, na verdade, podemos ficar incrivelmente incomodados com filmes artísticos, ao mesmo tempo em que filmes comerciais também podem nos deixar incomodados, como filmes que exibem as entranhas explodidas das pessoas, mortes escabrosas, sangue, gente sendo cortada e torturada, assim como no filme do Tarantino, só que no filme do Tarantino a gente não fica incomodado, apesar de não ser arte, mas filmes artísticos também podem deixar a gente muito feliz e extasiado, a gente, então, acaba achando essas coisas todas muito engraçadas e irreverentes, apesar de serem horríveis, mas que por serem realizadas em nazistas deixam de ser horríveis e se tornam “justas”, pelo mal que os nazistas fizeram com a humanidade, mas quem somos nós para julgar o que é “justo” ou não justo, “justo” ou justo, com aspas, ou sem aspas, ou seja, no meu bolso também havia as minhas chaves de casa, que são muitas, pois a minha porta da frente possui muitas trancas, além de haver as chaves da porta dos fundos, as chaves do portão do prédio, e a da grade que existe entre minha porta dos fundos e o elevador dos fundos.
.....Então, quando puxei a minha mão que estava enfiada em meu bolso, para fora do bolso, quase todo o seu conteúdo caiu. Por ser extremamente cuidadoso, já prevendo o que estaria por vir, interrompi o movimento de meu braço direito. Mesmo assim, o papel que envolvia o canudo que utilizei para tomar refrigerante enquanto assistia ao filme do Tarantino, que havia me deixado muito feliz, embora não fosse muito artístico, mas o que é artístico não precisa nos deixar felizes, na verdade, podemos ficar incrivelmente irritados com filmes de arte, enquanto filmes muito comerciais também podem nos deixar igualmente irritados, assim como filmes que mostram entranhas que explodiram, mortes assustadoras, sangue, gente sendo esquartejada e sob tortura, assim como no filme do Tarantino, só que no filme do Tarantino não ficamos incomodados, apesar de, definitivamente, não ser arte, mas filmes artísticos também podem nos deixar muito felizes e extasiados, digo, a gente acaba achando essas coisas todas muito cômicas e quase banais, apesar de serem horripilantes, mas que por estarem sendo aplicadas em nazistas deixam de ser horripilantes e se tornam “aceitáveis”, pela maldade que os nazistas fizeram com os seres humanos, mas, quem somos nós para julgar o que é “aceitável” ou não aceitável, “aceitável” ou aceitável, com aspas, ou sem aspas, ou seja, o papel do canudo caiu no chão.
.....Por ser uma pessoa extremamente limpa e correta, pelo menos no meu ponto de vista, quem somos nós para nos dizermos corretos ou não, se todos fossemos realmente corretos como imaginamos ser, o mundo seria drasticamente diferente, logo, me abaixei para pegar o papel que havia caído no chão, que por ser em frente ao meu prédio, não gostaria que ficasse sujo, embora os outros chãos, que não são o do meu prédio, sejam igualmente importantes para um mundo mais limpo, eu dificilmente pegaria o papel de um outro chão que não fosse este. Eis que ao fazer o movimento de curvatura de meu tronco, percebo que algo cai de meu bolso, aquele que estava lotado. Algumas idéias passam pela minha cabeça, e quando lembro que meu pendrive habitava meu bolso naquele dia, congelo meu corpo por uma fração de segundo. Tempo suficiente, este, para que o pendrive realize a sua queda livre. Como o universo estava conspirando a meu favor, e Murphy ligeiramente distraído, o pendrive aterrisa suavemente sobre o macio tecido de meu querido tênis cinza. Qual não foi a minha surpresa e alívio ao constatar este fato.
.....Após retirar as chaves de meu bolso, recolhi o pendrive de cima de meu tênis cinza, recoloquei-o em meu bolso, e abri o portão de meu prédio. Caminhei dois passos até a porta interna de entrada e após colocar a chave na fechadura, pude ouvir o vento remexendo algumas folhas no pequeno jardim da entrada. Virei a cabeça rapidamente, e ainda tive tempo de ver algumas folhas aterrisando suavemente sobre a terra do canteiro. Após entrar, olhei-me no grande espelho da recepção. Como sempre, meu cabelo não se encontrava da maneira que imagina estar. Eu sorri. E olhei nos meus olhos. Arrumei o cabelo para a posição na qual imaginei que ele já estivesse e peguei o elevador.
.....Enquanto subia, pensei nos acontecimentos recentes, e imaginei que estes poderiam gerar um bom texto, ou, mesmo que não fosse bom, algum texto. Entrei em casa. Estava com preguiça de escrever. Mas, se não escrevesse, logo iria me esquecer da ideia. Sentei no computador e comecei:
.....“Era 00:31. Eu não gosto muito de Tarantino. Bom, até que gosto, mas... não é realmente arte. Bom, mas o que, realmente, é arte? Tarantino me diverte. Mas, o que nos diverte é arte? O filme do Tarantino havia me divertido bastante. Caminhei rápido pela Oswaldo Cruz. Não muito rápido, apenas o suficiente. A rua não estava vazia, mas também não estava cheia. Meio vazia para os pessimistas, meio cheia para os otimistas. A temperatura não estava fria, mas também não estava fazendo calor. Um pouco abafado, talvez, embora o vento abrandasse essa sensação desconfortável. Odeio quando está assim. Meio quente, para os pessimistas, meio frio para os otimistas. Isso se a pessoa for otimista e gostar de frio, pois, se não, seria o contrário. Chegando ao portão de casa ainda olhei para trás, conferindo se havia alguém por perto. Ou me perseguindo. Sempre faço isso, embora nunca haja ninguém me perseguindo. Paranóico. Coloquei a mão no bolso para...”
.....Estava com fome. Levantei-me e fui para a cozinha. Passei requeijão no pão. É incrível que meu pendrive não tenha se estatelado no chão. Esse não foi o melhor filme do Tarantino, definitivamente. Poderia estar mais frio. Onde foi que botei meu celular?
.....Entrei no meu quarto, estava escuro. Por não acender a luz, bati meu nariz com muita força. Após acendê-la, vi que havia deixado minha edição comemorativa de “Ulysses”, extendida e alargada, totalmente ilustrada, com comentários ao pé de cada página, e com um prefácio do Chuck Norris, largada no chão, perto da porta. Empurrei-a para um canto, pois não caberia em nenhuma estante da casa, e provavelmente em nenhuma estante pré-existente à publicação deste volume. Peguei meu celular. Voltei para o computador e continuei a escrever.
.....Enquanto isso, Tembi Vaiore Sarba, o mago que controla o Universo e todas as coisas que existem dentro dele, estava em seu castelo meta-físico, mexendo em seu caldeirão de substâncias criadas por ele mesmo, observando Rafael em sua bola de cristal. Aos berros.
.....-AHAHAHA!!!! RAFAEL! Seus dias estão contados! O seu destino está condenado! Aliás, estou de saco cheio deste planeta inútil.
.....Então Tembi Vaiore Sarba começou a golpear o planeta Terra com chutes violentos, jogou uma grande tempestade de lava, enviou habitantes de outras galáxias para bombardearem a Terra e...
.....-Está horrível – disse o editor – Esta história é uma bela porcaria. Quem vai querer ler este texto pobre e mal escrito? Ela se arrasta por horas e horas, e tudo que acontece é o menino entrar em casa! Depois, ele começa a escrever uma história exatamente igual à que acabou de acontecer com ele! MUITO POBRE! E pra piorar aparece um volume gigante de “Ulysses” e, coroando o cocô textual, uma mago que controla o universo, e que chuta nosso planeta. É, certamente, uma das piores histórias já escritas. Por um ser humano. Meu sobrinho de 2 anos faria melhor do que isso. Horrível. Um nojo.
Eu gostei.
-Quem disse isso?
Eu.
-?!?!?!?!?!?!!??! Quem é você? Que estranho, para você falar nem é necessário o uso do “-“
Eu, o autor.
-Mas, mas, como assim?? Onde você está??? Estou ouvindo sua voz dentro de minha cabeça!!!
Sim, é por você fazer parte da história que estou escrevendo.
-Ó, meu deus!
Pois é, e eu acho que a história está ótima e que você deve publicá-la assim mesmo.
-Não, não e não. A editora é minha, e eu publico o que eu quiser.
É, mas a sua editora foi criada por mim. Logo, eu que decido.
-Não mesmo! Nem vem, não estou com saco para discutir com você agora.
É melhor fazer o que lhe digo...
-Ah, é? Se não...?
Se não eu te tiro da história. Te destruo.
-Ahaha, você não pode fazer isso. Sou o único personagem da história até agora. Se me tirar, a história acaba. Nem tem como voltar para a história do Rafael, você já “destruiu” ela quando me introduziu no seu texto.
Bom, não vai publicar mesmo?
-Não
Então irei te destruir. Sem “ ”.
-Quero ver, você não teria coragem.
Ok.
.....Então a Terra foi atacada por uma chuva de lava, e alienígenas começaram a disparar seus canhões atômicos contra nosso planeta. E, além disso, a Terra foi golpeada violentamente pelos chutes de uma criatura superior. Então, todos os seres da Terra morreram. Na verdade, a atividade destruidora foi tão intensa que todo o Universo se auto-destruiu. Acabou, não sobrou nada. O Univeso passou a não existir mais.
.....Mas na verdade, as criaturas do Universo nem sentiram direito, foi tudo muito rápido. Ao contrário do filme do Tarantino, onde as pessoas são torturadas e as cenas de morte duram horas.
.....Bom, então é isso. Não tem Universo, não tem mais história. Na verdade isso nem poderia estar sendo escrito, já que também faço parte do Universo. Que inverossímil. É, realmente, esta história está uma bosta.
-Concordo.
.....Rafael terminou de escrever sua história, mas ao tentar sair de sua sala, se deu conta de que estava boiando no Universo frio e vazio. Para piorar a situação, seu pendrive saiu de seu bolso e começou a boiar para muito longe.
-Oh, não! Tenho vários arquivos importante ali!
.....Então ele se lembrou de que o Universo havia acabado, e ficou mais calmo, pois não iria mais precisar dos arquivos.
(A TELA FICA ESCURA E ENTRA UMA MÚSICA MUITO CALMA E MELODIOSA. LOGO, APARECEM OS CRÈDITOS DO FILME)
ESTE FOI UM FILME DE:
QUENTIN TARANTINO
-Isso não é arte. Isso é uma bosta.
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http://twitter.com/RafaelSperling
domingo, 8 de novembro de 2009
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27 comentários:
Rafael, acho que você foi invadido por Cortázar, Stephen King, Júlio Verne e claro, dirigido pelo Tarantino.
Os filmes do Tarantino só não são tão absurdos quanto a realidade. Por incrivel que pareça.
depois que vi uma bosta num fundo branco e todos admiravam... seu texto fez todo o sentido.
agora, a linguagem não-linear de tarantino não é arte, é vivência. pq a vida é não-linear
gosto do seu humor.
mas não gosto de tarantino, ou pelo menos acho que não.
Pra mim o cinema do Tarantino é delirio. Delirio visual, sonoro, sangrento, erotico, e violento. Não é arte mesmo, mas tem seu charme. Como nesse último, no qual ele coloca judeus, nazistas, americanos, franceses, etc., todos dentro de um teatro, e explode todo mundo, como se dissesse: q se explodam vcs todos, sao todos iguais! Concordo com os outros comentarios sobre o Tarantino, partilho deles.
Tarantino pra mim é uma criança.
Filma exatamente o que quer, da maneira que quer, com tripas, sangue e humor negro.
pra ele, foda-se se não fizer sentido, ele fez. Pra mim, não deixa de ser arte.
e, se pensarmos um pouco sobre o que escrevi, não só esse seu texto, mas todos os seus outros textos parecem obras Tarantinescas.
será você então um artista?
e pra você o que seria uma bosta? hn
e pra você o que seria uma bosta? hn
Porque tudo que você escreve por mais confuso que seja, acaba sempre sendo genial?
Seus textos me confudem da cabeça aos pés \o
mas eu adoro
ahuahuahauhau
ca-ce-te
deveria assistir, eh um otimo filme.
=)
Tarantino pra mim é rei 'Kill Bill" ever! rs
Inglóruis eu ainda não vi nossa que vontade de ver !
Tipo asssim, o mundo foi destruído?
HANN? HANN?
E eu aqui ainda falando.... ax o que os blogs ainda restaram rsrs
Abraços!
Não to afim de comentar sobre Tarantino, me recordo no momento de poucos filmes dele que eu assisti. Mas se o cinema é a sétima arte, o que Tarantino faz acaba sendo arte. Se é ou não, também não faço questão de saber. xD
Eu gostei muito do texto, do conflito que há entre sua mente criativa e seu eu escrito. Eu me divertir muito. Se é arte ou não eu não sei, também não faço questão de saber. xD
Beijocas! ^^
Sério, eu gostei! No começo eu estava um pouco desatenta, mas a parte em que o autor começa a falar com o cara é muito intrigante. Acabei lendo até o final. Poste mais coisas do tipo, eu achei bem interessante! É um filme? Vou procura-lo!
também não pegaria o papel se não fosse o chão de frente onde moro
Tembi Vaiore Sarba é um pseudônimo de Murphy, por isso acendo as luzes do quarto antes de entrar.
(e os cabelos seguem à risca as leis do grande mago)
Amo os filmes de Tarantino. Até bosta é arte, de vez em quando, depende dos olhos de quem vê.
texto com um toque nerd, vida longa e próspera.
beijo, rafael
ahhhhhh,esses textos loucos!Loucos e divinos!maravilhosos!
Que raiva tenho deles e como não consigo ficar sem ler!
Mas nen toda bosta é arte,não! tem muita bosta que realmente é sem valor!
Está sumido por lá eim=/
parabéns por um texto gigante e ideias soltas que se casm bem!
post novo por lá ^^
Querido, você sonha com tudo isso?
*Paro em frente a tela do computador, lanço meu olhar sonifero, cruso as pernas e acendo um cigarro, esperando uma resposta tão sonifera quanto os meus olhos.*
O texto é superinteressante, principalmente do início até o pendrive caído sobre o tenis.
Na verdade qualquer maravilhoso texto - longo - num blog acaba ficando cansativo, pois que (para mim pelo menos) a leitura dos blogs sempre se dá em "rabichos" de tempo.
Um abraço.
Quem é Tarantino? Por que que não é arte? Tinha que ser arte ¬¬
Eu quero arte... muita arte.
Beeijos.
Oi, Rafa!
Que coisa, não? Uma histporia dentro de outra história que na verdade era uma história, e tantas histórias que nunca deixaram de ser uma única história!
Gostei da ideia que o texto dá. è uma confusão interna, e, por serem pensamentos, palavras e pseudo-ações, não precisa necessariamente, fazer sentido. Mas é isso, não? Somar sentidos. Uma das definições do seu blog...
(o que me lembra: você prefere some sentido ou som e sentido?)
enfim, como sempre, adorei o texto.
Ah, vou adorar conhecer a clinica de reabilitação floral aí do rio. Não costumo ir para aí, mas, se for, eu com certeza vou querer que você me mostre onde é! ahah
Beijos da Lu!
Nossa :O
escreve um livro porque tu tem futuro ! eu curto esses textos meio doidos :P
beijos ;*
E eu não sei o que dizer.
^^
ele sabe da teia em que tudo está contido. busca a continuidade das linhas não pelo traçado, mas por reflexos. mundo de enigmas, chão, breus e de um menino que tem uma plantação de lótus nos pés.
Tarantino sucks. O que é arte afinal?
Beijos
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