domingo, 7 de fevereiro de 2010

Amores e um Século

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E o amor, aquele amor enorme, aquele amor cheio de gente, grande pra caralho, amor que entope os canos. Esse amor de gente maluca e esquizofrênica, que gosta de bater a cabeça na parede e de jogar dardos em estrume. Amor de pernas compridas, vestindo bota de plástico amarelo, cozinhando bife com batata frita, em cima da montanha. Devendo dinheiro e coberto de chocolate quente. De manhã cedo e sonhando com as pessoas do ódio negro. Fazendo musculação com o poste e escrevendo leis lógicas. Dentro do disco de prata no museu e com medo de sair na rua. Sapateando na farda verde e se segurando pra não cair no abismo. Guardado no pote de sorvete e pegando um avião pra França. No fone de ouvido metálico e na aba do chapéu. No meio do fogo da churrasqueira e dentro das pálpebras. Se jogando no fosso do elevador e atarraxando as porcas. Mastigando madeira e conferindo as notas fiscais. Na areia do deserto e no lado do fio dental. Saindo pelo chafariz e arrastando bolas de ferro. Dizendo "as facas são de boa qualidade" e "Certamente sou hermafrodita". Vestindo roupa de balé e espancando mendigos. Sendo usado como tempero e pintando a unha com esmalte roxo. Sendo usado para assassinar padres e como lubrificante íntimo. Sendo lançado como bola de boliche, na cara dos presidentes de associações de moradores. Correndo pelado pela rua enquanto se masturba freneticamente. Tentando despedaçar a parede do banheiro, já que acabou o papel higiênico. Chupando cabo de eletricidade e chutando almofadas macias.


Amor de pata. E de coice. Amor de tangerina podre. Amor com cubos de vidro derretendo. Amor sabor catarro. O amor que achei dentro do sanduíche. O amor que falou sobre os telefones incendiários. Amor que colocou silicone na barriga.


O amor já chegou dizendo que estava querendo mudar de vida, gostaria de pedir um conselho. Disse que estava puto com as coisas. Eu disse que ele devia evitar as coisas. Mas é difícil evitar as coisas, elas estão em todos os lugares, ele falou. Quais coisas você quer evitar? Todas, ele respondeu, todas as coisas que existem. Qual o problema das coisas? "O problema é que elas existem". Mas é claro, falei. "Pois é, mas eu não existo".


O menino estava andando e tropeçou. Bateu com a boca em uma lata enferrujada e quebrou os dentes. Foi levado para o hospital. Alguns dias depois, estava com a cara toda infeccionada, apodrecida, cheia de pus. Tiveram que arrancar os dentes todos, mas não adiantou. "Vamos ter que arrancar a cabeça fora, para não comprometer o resto do corpo". Botaram a cabeça do garoto na guilhotina e perguntaram se ele queria dizer algo antes que cortassem sua cabeça fora. Ele disse: Isso é AMOR.


A mulher estava em casa. Entraram 15 ladrões. Quebraram tudo, reviraram a casa. Perguntaram pelas jóias. A mulher disse que não tinha. Ameaçaram matá-la caso não as entregasse. A mulher chorou e disse não estar mentindo. Os homens pegaram canos de ferro para espancar a mulher. Enquanto isso chegava o marido. Viu o que estava acontecendo do lado de fora. O marido entrou munido de muito amor e partiu para cima dos ladrões. Eles estraçalharam o marido e depois estupraram a mulher antes de matá-la. Com amor.


O garotinho foi até a privada. Ele nunca havia utilizado esse dispositivo urino-fecal. Sentou-se com muita dificuldade e despejou tudo lá dentro. Depois chamou a mãe. "O que é isso, filho?", "É amor, mãe".


O amor chegou na churrascaria cedo, no início da tarde. Ele começou a comer. Comeu muito, durante várias horas. "O senhor está bem? Não acha que já comeu demais?", "Não, estou com fome, ainda". E ele continuou a comer. Depois de mais algumas horas, começou a berrar de dor. Em pouco tempo seu corpo começou a rachar. Mas não parou de comer. Poucos minutos mais tarde, quando faleceu de tanto comer, alguém comentou: "O amor não é propriamente algo, ele é tudo o que não é".


E as pessoas continuaram sendo elas mesmas. E eu aqui, sendo o que não sou.



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Vejam no
http://descemaisum.blogspot.com/
O Bloco Humano
Uma visão apocalíptica do carnaval.

27 comentários:

Marianna disse...

Fico imaginando qual é o alvo quando se arremessa dardos em estrume.
Eu ri do ódio negro.
Hermafroditas também amam?

Sendo lançado como bola de boliche, na cara dos presidentes de associações de moradores.
Lembrei do Bush quando quase levou um sapato na cara hauhhuahauhua.





E que bom que esse tipo de amor não é.

Paulo Braccini disse...

Tenso ... Simplesmente inebriante esta hemorragia de palavras a traduzir um SER ...

""O amor não é propriamente algo, ele é tudo o que não é"".

"E as pessoas continuaram sendo elas mesmas. E eu aqui, sendo o que não sou."

Dizer mais o que?

bjux

;-)

Athila Goyaz disse...

Nossa Rafael esse texto foi profundo hein!
Bom o amor é o tudo e o nada é estar presente por si só e desdenhar dos abraços de outras pessoas para levar um chute na cara de um ser especial.

Gostei do menino e sua primeira defecação na privada, porque concerteza, é a prova do maior amor que temos, o amor de nossa mãe que limpava nossas bundas todo o santo dia!

heheh

Espetacular!
abraços!

Paulo Vitor Cruz disse...

opa, passando por aqui mto atrasadamente p agradecer pela visita ao meu blog... gracias, colega...

e tbm aproveito o comentário p agradecer a chance de descobrir teu blog, cara... tudo mto massa por aqui... já conhecia o blog do 'desce mais um', mas ainda n tinha aparecido por aqui.. virei seguidor...

*ah, sinta-se convidado a voltar lá sempre q der/quiser...

abs+ão.

Gisa Dias* disse...

Sempre escreve coisas bacanas!

big bjokas*

Adoroooo aqui*

Daninha disse...

"Amor sabor catarro." (?)
Deus do céu...
OAPSKAPOSPAKSPAOPSK
Mas, tá, o amor esta em todos os lugares.

;**

Marcelo Mayer disse...

amor... por mais que a gente saiba que isso faz tanto mal... sempre vamos ficar falando dele. amor ee uma bomba atômica. se nnao mata na hora, deixa o corpo por decadas contaminado.

Letícia Mariano. ღ disse...

Eu simplesmente acho impossível que alguém seja o que não é, pois nesse exato momento ela estaria sofrendo uma mutação e se tranformando no que ela não é, consequentemente sendo-o. Ficou confuso, né?

Eu não sei se ainda acredito em toda essa história de amor.

Gabi disse...

Adoro como você faz uma coisa tão bonita quanto o amor ter um lado tão... repugnante.

Tiago Fagner disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tiago Fagner disse...

Não sei qual a sensação que fica depois de ler tudo isso. Mas como boa parte das tuas palavras, que já li, é inquientante. Incomoda o nosso lado politicamente correto. Acho que você tá certo quando diz que o amor é tudo que não é, por isso ele é tão difícil nesse mundo onde a regra é SER. Você também não é, talvez seja o amor. Então eu estou divagando com o amor sobre a minha dificuldade de não ser o que não sou.

RaH disse...

Você pode até não falar dos seus sentimentos, como você me disse.
Mas a gente encontra sim sentimento no que você escreve.
A gente viaja junto com você.
E é incrível.
Adoro isso.
Adoro como a gente tem maneiras diferentes de escrever, mas como consigo viajar em tudo que você escreve.

Adorei isso aqui também.

"O amor não é propriamente algo, ele é tudo o que não é".

E as pessoas continuaram sendo elas mesmas. E eu aqui, sendo o que não sou.

Dandara disse...

Eu pensava que você ia falar de amor bem graciosamente, mas lógico que não. onde iria parar rafael.

e todo dia ser algo que não é.

Ray Siq disse...

Wow.
texto absurdo de incrivel.
tipo, ao mesmo tempo que é tão amor é tão eca!!! shuahsuahsausha

e essa frasezinha de finalização arrasou!

ebaa eu tô em 3 lugar!
Beijoo ;***

Renata Penzani disse...

me lembrou o poema O amor comeu, do João Cabral de Melo Neto, tão lindo, mas um pouco mais violento e incisivo. Muito bom!

aproveito pra divulgar os meus escritos, de casa nova: www.furtacores.tumblr.com

um beijo!

Érica disse...

Amor é coisa de gente doida, eu sou normal.

Olha, adorei essa frase e ta no meu nick do MSN, perfeita. kkkk

" Amor de pata. E de coice. Amor de tangerina podre..."

Ferdi disse...

Colocado dessa forma eu não tenho mais nada contra não ter todo tipo de amor.

Juliana Porto disse...

É. Dá o que falar esse tal de amor.

Beijos

Mari Amorim disse...

Rafael,

luar na relva
vento insone
tira o sono das flores
Boas energias
Mari

Edilson disse...

Querido Rafael:

Que hemorragia, que catarse de imagens sobrepostas que fazem gerar em mim vertigem, tontura e loucura. Impossível não pensar num batepapo de boteco (altas idéias,cervejas e divagações).Parabéns brilhante teu texto.
Abraço
www.lua2gatos.blogspot.com

Fê Colcerniani Justo disse...

Nussa, que amor cheio de pragas e desgraças... to fora! rs
Mas adorei!
Bjs

disse...

Nossa !
que tenso !

amor mais estranho hein ! ehueheuheuheuhe . cheio de descrições anormais ! HAHA

mas mt legal :)

beijão!

Bom Carnaval !

Juliana Lira disse...

Rafael

Confesso que fiquei completamente sem chão...Tô ainda tentando entender esse amor tão descaracterizado rsrsrsrs
Fiquei um pouco tensa e por vezes tive vontade de chorar, porque esse texto taõ intenso me passou a idéia de que não sabemos amar ou o que é o amor...
E se faz pensar vale a pena!

Milhões de beijos

Olga disse...

gostei. :)

Se7e/5 disse...

Aqui o se7e/5 vai oferecer-lhe um comentário útil e não essa merdice de favor que essa gentinha espalha por aí. Será que você merece? É uma dúvida fodida, mas, aqui o se7e/5 vai mudar seu pensamento, vai ativar seu cérebro. Se não sentir qualquer mudança, é porque seus últimos neurônios já eram.
Muito lindinho, mas inconsequente. Sem aquela profundidade útil. Apenas mais do mesmo. Aqui o se7e/5, vai mais longe, pretende espicaçar vossos neurônios preguiçosos. Aqui o se7e/5, vai mais longe, pretende espicaçar vossos neurônios preguiçosos. Abrir vossa fé de alto abaixo. Obrigar-vos a revelar o que de muito útil existe em você, caro lindão. A lindona também não é de deitar fora; muito lindinha mesmo. Bem, mas vamos ao que interessa:

“A cultura é uma merda cansativa. Ter de saber tudo ou, pelo menos, mais do que os outros, não deixar cair a “pena”, manter a noção do texto corrigido antes de o escrever. Estar permanente sóbrio num estado de embriaguez, quando apetece vomitar sobre os intelectuais de novela da hora nobre. E em nós também. Por que não suportar propostas políticas aliciantes, intelectuais e corrupção?
Ao serviço do poder, do partido, dos lados ou das cores; qualquer desculpa serve o propósito. E a cultura é apátrida! E conservar a imagem de personalidade do ano, como tias “estafermadas” sem corpo, sem neurônios, sem vergonha na plástica e a cultura que se foda! Estes intelectuais transpiram diferença e indiferença, inspiram o oxigênio do euros, dólares e reais e a expiração tem o curto prazo de um governo eleito. Sem tempo para respirar, porque a cultura é asfixiante , porque ler um livro não basta, nem milhões de livros garantem uma cultura de se lhe tirar o chapéu. Uma chapelada. Não há tempo para respirar cultura! Apenas se aguarda uma cajadada no lombo porque o pastor se aproxima para escolher uma ovelha ranhosa para o sacrifício. As ovelhas ranhosas são perigosas, tal como as ovelhas brancas em rebanhos de ovelhas negras. As negras também se abatem mas, antes da prática carniceira, são discriminadas.
Não há ovelhas negras em governos Brasileiros. Talvez haja. Jogados a um canto escuro a coberto da noite, onde permanecem até a aparição servir uma conveniência branca. Tal como qualquer outro rebanho. Tal como as tias e descrentes que se movem em espaços virtuais, pastando como ovelhas negras, frequentando círculos próprios onde se isolam em divagações de alta sociedade, cuspindo disparates que os fazem dormir mal e acordar pior.
A cultura do sec.XXI é uma mescla de economia global, política dominante e apropriação intelectual ao serviço da proliferação da miséria e sofrimento, como factores de revitalização permanente dos esgotamentos evolutivos periódicos. Correr sem sair do lugar. O conhecimento corrompido, a cultura de almanaque, jornal desportivo e leitura alcoviteira do jet-set, remete para o conhecimento desenraizado do progresso democrático sob a égide de um Estado de Direito, mas sem qualquer ética como regra.
O fantoche intelectual é uma realidade que descansa na palma da mão e se equilibra no dedo acusador dos oportunistas sem escrúpulos, os poderosos, com objectivos de domínio global. A força dos dedos médios em riste, firmes. São estes fantoches que anestesiam e embalam as massas, mantendo-as desfocadas da realidade. Quando a dor se revela, esses intelectuais “blogosferam-se”; fogem para a lixeira inconsequente dos desabafos indignos.”

Isto é a BLOGOSFERA, na qual todos vós chafurdais, como porcos num chiqueiro. Se aqui o se7e/5 estiver errado, provem!

Taiyo Omura disse...

apicht é nóis

Anônimo disse...

Oi!
Tenso...
gostei!!
Bjs,
Maria Clara